I.

Não escrevo para que me leiam
menos ainda para que me entendam.

                                                     Se escrevo
é para que esse fio tênue
se não parta ainda.

II.

Nada do que se escreve nos pertence.

Vejam este verso,
                                      que é meu:
agora que me deixa
é já uma outra língua
falada no coração das coisas,
é já um pássaro do mundo
a buscar céu,
é já paixão escrita em pele estranha ―
                                      estranho arranjo
no corpo árduo das horas.

III.

E nestas confissões,
quem fiará valia?
                                  Narciso desnomeia espelhos.

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A Selvagem Língua do Coração das Coisas
Dércio Braúna
Realce Editora e Gráfica
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