Jaguaribe – memória das águas

Poemas que têm como fio condutor o Rio Jaguaribe, quase como uma metáfora do homem do sertão. Em suas margens, habitava o menino Luciano Maia, hoje reconhecido poeta da Academia Cearense de Letras, autor de livros que transpuseram as fronteiras nacionais e alcançaram leitores em diferentes idiomas.

 

Um dos mais bonitos livros que já li! Conheço-o desde o início da minha adolescência, quando ele foi lançado. A atual edição é a mais bonita de todas, ainda constando os desenhos do mestre Audifax Rios, mas numa encadernação lindíssima (capas e miolo) de um papel especial. A poética em si dispensa meus comentários, pois pertence a um ― desde jovem ― mestre, o poeta Luciano Maia.

Reproduzo a dedicatória do livro, feita de modo exemplar!

Aos cantadores

Aos poetas duendes do sertão
reinventores mágicos da lenda
recontada nas noites de clarão
(barco-viola aos remos da contenda
seguindo a correnteza do refrão)
na torrente da rima, em cuja senda
desliza o meu poema de alma andeja
neste rio de verve sertaneja.

Aos retirantes

Dedico o meu poema a este povo
peregrino habitante dos desertos
que depois de morrer nasce de novo
ressurgido das sombras, dos espinhos.
Dedico este meu canto em que não louvo
o sem-rumo dos rastros ribeirinhos
mas a força telúrica do rio
e a sangria assassina denuncio.

Aos bichos

Ao bicho triste (pé de arribação)
à acauã que canta o triste fado
à juriti, ao pássaro carão
à asa branca, ao sabiá, ao gado
que bebe o rio-ausente do verão
em cantigas de aboios represado.
A todos os viventes dos caminhos
Reverberados pelos passarinhos.

Às nuvens

Às andarilhas nuvens tropicais
que recebem do solo vaporoso
as águas em conúbios vesperais
e retornam (nem sempre) ao sequioso
país das pedras intertemporais
nalgum velado encontro, em breve pouso
dedico (na esperança de revê-las)
este canto de amor sob as estrelas.

Aos rios-irmãos

Aos rios do Ceará, principalemente
os do sertão sedento que não vão
muito longe da terra seca e quente
onde resiste o deserdado irmão
preso a um fio d’água sucumbente
que o amarra à sina deste chão
mas que ao tempo do solo lavradio
é a mais doce vazante do meu rio.

Aos outros rios

Também aos grandes rios forasteiros
alguns dos quais embora tão distantes.
Aos seus filhos e pais, desde os ribeiros
menores aos caudais mais importantes.
Aos nordestinos rios, companheiros
de dias parcos, tempos lancinantes
a aos que não mostram ao sol suas areias
as hídricas palavras destas veias.

Ao mar

Enfim, ao mar da Terra de Iracema
que acolhe estas águas irrisórias
dedico o meu atávico poema
(sincero contributo das memórias
dos sertanejos lídimos da gema)
e aos vaqueiros-do-mar, estas estórias
estes versos de múltiplo elemento:
de terra e fogo e água e sol e vento.

_______________________________
Jaguaribe – memória das águas
Luciano Maia
Escrituras Editora
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2 pensamentos sobre “Jaguaribe – memória das águas

  1. Livro de Luciano Maia, um tratado de Poética nordestina, sem deixar de contemplar a universalidade, como nos ensinou Leon Tolstoi. Por isso mereceu ter sido traduzido para o inglês, romeno, espanhol.

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