NA LEVEZA DA NOITE

“Abstrato” – Antonio Bandeira

“E tudo se detêm
e só nos resta ouvir
os ecos do que dissemos antes dessa hora
em que tudo já foi
e será sempre
estranho e distante.”

(Nicolau Saião in Olhares Perdidos, Escrituras Editora)

 

(ouvindo Madeleine Peyroux)

Madrugada e estio,
poeira sob o orvalho quase ausente,
cães já quase aquietados,
um casal que ao longe se faz casal,
massa urbana, postes, periferia,
um esgoto aberto aos anjos,
resquícios mínimos de calor.

Tudo parece docemente longe.
E é! O silêncio distancia os corpos,
suas mútuas agonias, ânsias, desejos.

Deixo-me a vela e vento enquanto
o sol não arbitra a hora de entregarmos a alma
à insanidade dos outros, estes e aqueles que gostam
de ganhar dinheiro e de contar objetos, buracos,
babas de impérios mortos.

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Créditos da imagem: Pintura Brasileira
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