Mariposa – Beatriz Milhazes

“Ao visitar as palavras, visitamos suas imagens. Um livro de poemas é um livro de imagens. Por isso, Rilke assim chamou um volume seu, escrito na Rússia. Porque imagens farejam palavras, como as borboletas os ramos.” 

(Carlos Nejar – Caderno de Fogo)

 

Sou uma coisa abismada na luz
e o trânsito me registra;
a palha ressequida e aprontada ao fogo oportuno:
                                                                              passo.

Em silêncio entre o estardalhaço
de todas as comunicações,
eis-me estrela acobreada num feriado
sem moças e sem lunetas.

Sou um animal raro como os raros seres do mar,
bichos de glândulas ocultas e venenos ainda mais.
Tenho os sexos plurais das plantas e dos peixes
misteriosos, sabedores dos néctares lunares.

Cismo converter sismos em açúcar,
sais em mais sais, e guardo os nomes
que escuto para tecer rendas domingueiras,
licores e areais bravios.

E, sem maiores espantos, sou uma
pessoa, uma costura assustada de outras
pessoas, convivências entre o sono e o choque.
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Fonte da imagem: Catando Poesia
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