NA VITROLA, MÚSICA FARPADA E DENTES

Finale – Albin Egger-Lienz

“A cidade tosse
como um índio com febre”

(Roberto Piva)

 

Apesar da arte, o homem mata e se mata,
ata-se ao maremoto, ao coice, ao sem-sentido;
atravessa a rua e o pensamento-limite na hora
de ser atropelado, e o é, sem mais cerimônias.

Apesar dos avisos, das rezas, das mães, das tias
lá de Belém do Pará, ou da garota ruiva de Amsterdã
(ou seria de Dublin?), os homens são um estrupício:
querem ir a Marte colonizar o ferro que lá existe,
querem reinventar um Santo Sudário a cada cinco
anos, querem gás de pimenta nos olhos alheios,
querem amor, sem merecimento. Querem.

Apesar de toda vida, sua pujança, e livros, e filmes
de Fellini, os homens querem desgraça, gorduras
trans, a cem por hora, não havia como enxergar,
era tarde, eu estava com muito sono, ele era um canalha,
ninguém presta naquela família, nem naquela empresa,
ora mais, quem é você?!

Apesar da mística sem-mais que o silêncio pode,
ou do sexo que pinta em cores exuberantes, ou da garça
acesa à beira do lago, ou do hexagrama advinhado
à vinha de boa colheita, ou da tarde de sol cheiroso
a amor varandeiro e a Vinícius de Moraes, os homens
estão destruindo tudo, pois que cupins de fogo,
bocas de leão que o são, que os somos

                                                                     ― implacáveis!

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