One Dollar Münze, 1972 – Richard Huber

 

 

Nenhuma ninfa virá
ao nosso encontro.
Nenhuma cambraia ―
com pássaro e tulipa
― aos olhos, ao tato,
ao sonho (nossos, se ainda!).
Nenhum alcaçuz fará seda
às nossas bocas, exércitas que o são
a tempo de dentes.

Nenhuma mão virá
(nem lhe faremos as vezes)
que possa reverter
o leite derramado, a cárie,
a pústula, a inveja, o fratricídio.

Vivemos o tempo da deselegância;
tempo de render-se ao mal,
à morte, às salmouras do coração.

Cresce-nos ao estômago
e à garganta
inventários de falas algemadas,
ampulhetas inquisidoras,
florações de medos.

É cotidiano (praxe) o terror.
Cada gesto, olhar, instante,
sentimento
― zona de combate!

Por cobiça, a dentes, ama-se
ao dinheiro, a seus mitos
e derivados.

Entre anúncios, liquidações,
o rim traficado, o homem-bomba,
albatrozes negros de petróleo
e o poema esquecido,
morrem Cecílias e Vinícius,
esfolados pela lógica do ganha-ganha.

(ao fundo, La Vie En Rose
em tons destroçados).
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Créditos da imagem: Richard Huber (Via Wikimedia Commons)
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