Facas – Fotokannan

 

Açougueiro sem câimbra nos braços,
eu faço versos como quem talha.
A facão ―

                    pronuncio a lira dos gumes
                    como quem alteia salmos
                    nos altos dias de Jerusalém.

Açougueiro de epistemes,
eu faço versos como quem sangra vidas
para o alimento doutro bicho,
retalho carne como quem recita Pessoa,
amolo minha lâmina
como quem ensaia dizimentos e cantos
ao som de coros de ambivalentes arcanjos.

Açougueiro lavado de hemócito perfume,
eu me sento neste dia
nas escadarias da Casa do Pai
e O Como,
engulo-O
como quem fome tenha
e ao cabo da blasfêmia anatropofágica
mais fome tenha.

Açougueiro sem câimbra no falo,
eu me erijo
e me alteio
como quem ora ―
e pronuncio o nome do Pai
com minha mão esquerda.

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Metal sem Húmus
Dércio Braúna
Editora 7 Letras
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Créditos da imagem: Fotokannan
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