CAMPOS DE CARVALHO: UM RIO SONHANDO AZUIS

Campos de Carvalho, nascido em Uberaba-MG, no 1º de novembro de 1916, e falecido em São Paulo-SP aos 10 de abril de 1998, escritor reconhecido como o pai do surrealismo brasileiro. De sua autoria, eis um texto:

“MENSAGEM

Há que haver os loucos,/ os alucinados, os videntes,/ cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver/ sobre este mundo visível e as verdades consagradas,/e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações/ das águas eternas e inaudíveis/ que são o destino de todos os barcos./

Há que haver os que despertam à meia-noite/ angustiados,/e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas/ como uns loucos – não o sendo – /e exprimem numa linguagem que não é a sua,/nem a de seus pais,/nem a de qualquer outro povo da terra,/estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,/e depois serenam como o mar após a tempestade/ e não sabem mais recordar aquilo que disseram,/e choram quando lhes mostram seus puros êxtases,/e sentem-se miseráveis despertados.

Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,/ pálidas, sinuosas, quase fluidas,/se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas/ e inconscientemente, totalmente a cegas,/gravem para a eternidade, como num frio rochedo,/palavras de fogo e de sangue,/ânsias, ódios, espantosos desesperos,/para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram,/como sonâmbulos que, de repente e a sós,/despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas/ e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens,/tão perto dos deuses.

Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade,/ velhos hábitos e confortos seculares,/e sem levar nada de seu,/ apenas sua consciência desarvorada e lúcida,/ põem-se a perseguir novas e estranhas verdades,/ como que hipnotizados,/e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação,/ noite após noite, sol após sol,/ até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas/ e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma,/e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez,/como o amante à amante no momento supremo da posse.”

(Fonte: Agulha – Revista de Cultura, nº 54, novembro/dezembro de 1006)

A Revista Bula tem um ensaios de Nelson de Oliveira e Sinvaldo Júnior muito interessante: ”Campos de Carvalho: A vingança do ícone iconoclasta”
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