Observo aqui o resto de um fígado
― ao que parece, humano ―,
desfigurado de sua beleza selvagem,
                                          amarelecido.
Perto, uma perna de boneca,
matéria a imitar falsamente
a pele humana, pobre intenção lúdica
que outrora alegrou alguma inocência.
Pego um pente ― que cabelos teria
penteado para um fim de tarde
com alguma Teresa de um gentil domingo?

Sacos plásticos, sacos plásticos, sacos plásticos…

Não mais toca esta antiga radiola,
agora imprecisa, enlameada, muda,
                                    cheirosa a caos.

Cacos de vidro & garrafas inteiras,
peti, um retrato da Baia de Tókio,
a nascente do Jaguaribe, antiga, imagens,
                                           névoa e chorume.

Quanta humanidade há no lixo,
expressão de forte religiosiodade,
porto-umbral de memória e desgaste!

Adiante, entre urubus e sonhos,
crianças, velhos, adultos, pessoas
da cor do lixo, colhendo-o, criteriosamente,
para trocá-lo por um pouco de vida,
sobrevida que o seja, um pouco de crença,
um pouco de comida, um pouco de alegria,
fedida a desprezo, mas sincera, muito sincera.

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* Poema inspirado na matéria ”A civilização do lixo”, constante da revista IHU Online, nº 410

Créditos da imagem: Seek To Help & Repair!

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