I.

Dentro da minha ideia,
um corpo de coisa se avoluma,
um bicho se possibilita
implacável ―
                     seus cascos correm meu sono
                     impossível.

II.

Dentro da minha idéia,
por que uma coisa seria o canto
e outra sua mecânica,
                 se atritanto,
a cada fibra sonora
que o ar estende
dentro dos tímpanos?

Dentro da minha idéia,
todo canto é (só pode ser)
                                 iluminado
pela música braçal
de sua humana necessidade.

III.

Dentro da minha idéia,
sou o oleiro dos deuses
a que hei-de soprar-lhes às narinas ―
só eu posso o toque
                    (quase aéreo, quase
                      aereamente brutal)
que lhes derrama.

IV.

E minha carne trêmula
mal contém toda a precariedade
da minha idéia.
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Dércio Braúna é natural de Limoeiro do Norte-CE. Historiador, contista e poeta, é autor de O Pensador do Jardim dos Ossos (poesia, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (poesia, 2005), Como um cão que sonha noite só (contos, 2010), Uma nação entre dois mundo – questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (ensaio, 2008), Metal sem Húmus (poesia, 2008).
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