Minha vó tinha olhos de verão.
Ela abria a janela e com um olhar
transformava os rumos da tarde.
O terreiro que ela varria sentia-se diferente dos outros,
ele mesmo me contava.
Nesse terreiro a vó plantava botijas de história
para que eu as procurasse
e esquecesse o mundo noutro lugar.
Quando não me esquecia,
empoeirando-me no terreiro à procura das histórias,
os olhos da vó outonavam.
Duas folhas escorriam.
As folhas não eram secas, eram sentimentais.
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Kelson Oliveira é natural de Limoeiro do Norte-CE. Historiador, antropólogo e poeta, é autor de Quando as letras têm a cor dos sonhos (poesia, 2005), Os trabalhos de amor e outras mandingas – a experiência mágico-religiosa em terreiros de Umbanda (ensaio, 2011) e deste ”Para comover borboletas”.
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