Uma consulta via Internet* (Nilto Maciel)

Aqui e ali, me lembro de homens de letras aos quais não tenho ouvido mencionar. Faço interrogações: Você conhece fulano? Na maioria das vezes, nunca ouviram sequer o nome. Os mais velhos me deixam mais confuso ainda: Desse não me lembro, mas tenho boa lembrança de sicrano. Então citam o nome de quem só li uma ou duas vezes na vida. Os mais novos, a maioria, não sabem se estou a brincar ou a lhes fazer pergunta. Não, não sei quem foi esse Holdemar Menezes. Apresento-lhes A coleira de Peggy e A sonda uretral. Leio trechos. Ficam estarrecidos. E ninguém se refere a ele? Ninguém o reedita?

E assim nasceu a ideia de promover uma consulta a escritores (leitores especiais) sobre se conheciam a trajetória literária de fulano e alguma de suas invenções. Diversos nomes vieram à tona: Bernardo Élis, Campos de Carvalho, Eduardo Campos, Fran Martins, Francisco Carvalho, Holdemar Menezes, João Antônio, José Alcides Pinto, José J. Veiga, Juarez Barroso, Manoel Lobato, O. G. Rego de Carvalho, Samuel Rawet.

Objetivava-se avaliar a rapidez com que os ficcionistas brasileiros menos incensados (a grande maioria) desaparecem de cena logo após a morte ou ao chegarem à velhice (não ter mais ânimo para visitar redações dos jornais, conceder entrevistas, viajar, participar de eventos, etc). Se contavam com a sorte, o apoio de seus editores, a amizade de seus colegas, a sabedoria dos chefes dos departamentos e dos cursos de Letras, o apoio das secretarias de cultura, se contavam com os herdeiros, com o faro dos bons jornalistas, terão vivido sob o manto de uma grande ilusão. Pois mal baixam seus corpos à sepultura, já no dia seguinte (afora umas notinhas necrológicas em jornais locais ou regionais) não se sabe mais deles. Como se nunca tivessem existido.

A opção pelo nome Moreira Campos se deve talvez à paixão deste cronista por sua obra. Trata-se de um dos mais fecundos e fascinantes contistas de nosso país, comparável a Lima Barreto, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Murilo Rubião, Carlos Drummond, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e outros de igual renome.

Dirigiu-se, então, mensagem simples a algumas dezenas de blogueiros, editores e colaboradores de revistas eletrônicas, professores de literatura, estudantes de Letras, críticos literários, resenhistas, historiadores, jornalistas, etc.: “Quero mostrar o quanto ignoramos nossos escritores menos divulgados pela mídia, pela Academia, pelas editoras, etc. Gostaria de ilustrar o estudo com os nomes dos entrevistados, data de nascimento (optativa) e cidade natal. Mande, então, essas informações, além das respostas a estas perguntas: Você conhece Moreira Campos? Já leu algum livro dele?”

Pensando bem, qual o significado de “conhecer um escritor”? Para certas pessoas, conhecer é ter convivido com ele, no trabalho, na escola, na universidade, na vida literária. Para outros, é ouvir falar dele, ler a conhecer é saber o nome. Ou conhecer seria embrenhar-se nos pergaminhos? Talvez não devesse ter sido tão simplório na pergunta. Afinal, conhecer alguém hoje é tão fácil! Basta procurar na Internet: em pouco tempo, tomaremos conhecimento do filósofo grego, do poeta renascentista, do novelista fulano.

Num universo de cerca de seiscentos nomes, obtive cerca de cem respostas.

Os leitores deste escrito poderão suspeitar de mim. Será tudo verdade? Existirão tais pessoas? Terei redigido tais perguntas? Ou tudo não passa de peça ficcional? Ou seria uma fraude das mais reprováveis?

Pelo conhecimento das respostas, percebe-se o quanto algumas pessoas se sentiram enganadas, especialmente no quesito “conhecer Moreira Campos”. Além disso, terá havido sempre honestidade? É fácil afirmar: Sim, conheço Moreira Campos. Li o seu nome ou sua biografia num canto qualquer da Internet. Há também a ingenuidade de muita gente. Como se eu tivesse solicitado uma ajuda, alguns cidadãos copiaram dados biográficos do personagem desta crônica e me enviaram. Como se dissessem: Tome, leia, conheça Moreira Campos, seu preguiçoso, seu incapaz.

Os respondedores das duas perguntas (Você conhece Moreira Campos? Já leu algum livro dele?) estão assim divididos: um terço são cearenses ou residentes no Ceará; dois terços de outros Estados. Da primeira geração após a de Moreira Campos são apenas oito. O grande número é composto de pessoas nascidas a partir dos anos 1940. Um pouco mais da metade declarou ter conhecimento do ficcionista, enquanto os demais disseram não ter notícia dele. (Neste aspecto, há dúvidas, pois alguns afirmam conhecer o autor, porque leram uma ou duas de suas composições ou meras informações biográficas dele). Há igual proporção entre leitores e não-leitores.

Chamou a minha atenção o tom de algumas respostas. Pareceram-me azedas, raivosas, vingativas, esdrúxulas. Talvez movidas pela inveja. Não exatamente de Moreira Campos, mas de todo e qualquer homem de letras cujo nome apareça aqui e ali. Como se dissessem: “Não deixarei fulano aparecer, para não me ofuscar”. Um deles assim resumiu sua ignorância: “Não conheço Moreira Franco”. Observe-se: até confundiu o nome do contista com o de um político conhecido no cenário recente do Brasil. Chamaram-no igualmente de Moreira Sales.

Certo cidadão até fez deboche: “Você conhece Moreira Campos? Eu, não. Ele já apareceu no fantástico? Já leu algum livro dele? Eu, não. Já foi criticado no Rascunho?”

De Brasília, Anderson Braga Horta chegou a questionar: “Funciona esse tipo de pesquisa, Nilto? Será que os que não conhecem o autor vão topar? E a internet está aí mesmo para uma eventual cola…”

A carioca Ângela Schnoor se fez ainda mais enfática: “Querido Nilto, cuidado com as pesquisas! Eu nunca fui de mídias e, para ter ideia, nem TV vejo. Em minha casa não há canal de TV a cabo, não leio jornais e nem revistas e não conhecia o escritor Moreira Campos, portanto estou longe das mídias. Não se esqueça de que habitamos um país imenso e, se você fizer uma analogia, poderá conseguir resultado semelhante em toda a Europa. Por exemplo: procure por algum escritor italiano e terá uma surpresa ao descobrir que, mesmo em um continente mais culto que o nosso, um Giorgio Manganelli poderá ser pouco lido ou até desconhecido. Não sei sobre os demais, mas eu não tive formação literária e li muitíssimo menos do que gostaria. (…) Nilto, não mude nada do que acredita, mas procure não atribuir à mídia, etc… a ignorância dos seus consultados! Podem ser muitas as variáveis que levam a isto. Pesquisa inclui estatística e variáveis muito bem controladas, ao menos assim eu aprendi em minha formação acadêmica. Siga sua estrela!”

A poetisa paraibana Regina Lyra foi quem mais se estendeu nas respostas. Fui obrigado a promover cortes: “Não sei se o caso é realmente descaso. Acho que é falta de conhecimento, mesmo. Quando criança, a família muito orientava seus filhos quanto à leitura, principalmente os autores que eles (os pais) gostavam. (…) A criança na Escola também recebia uma orientação para leitura, inicialmente para os livros dos autores do seu Estado, da sua região que haviam alcançado o topo da glória. E os autores consagrados nacionalmente, como um Machado de Assis. A criança tornava-se adolescente e caminhava para suas próprias escolhas, conversas entre amigo(a)s, criava um espírito voltado para o intelectualismo, para a arte visual, escrita, cinematográfica, etc. isto aconteceu praticamente ontem. Hoje a família não orienta, a Escola é ignorante. E… se a pessoa não for interessada passará pela vida do jeito que entrou. (…) Aí converso com você e vemos que nosso país é muito grande, temos muitos escritores bons que nunca serão consagrados nacionalmente, no máximo conhecidos no seu Estado, talvez sua região. Veja bem, a política editorial brasileira é de uma tristeza profunda. A distribuição dos livros é quase inexistente. Com o apogeu da internet, todo mundo quer ser escritor poeta ou cantador. Sem conhecimento, disciplina, estudo. Sem sequer conhecer a língua. Você falou-me da sua pesquisa, creio que um capítulo seria exatamente este: A divulgação do Escritor. Moreira Campos deveria estar em um patamar mais alto de divulgação e conhecimento do povo brasileiro. Mas é quase um desconhecido e continuará sendo, com exceção de um ou outro pesquisador que, em vez de responder somente a sua pergunta, tiver o cuidado de pesquisar sobre ele e ler alguma coisa. (…) Assim, não fique decepcionado, se a resposta for negativa. Agora pergunto: Conhece José Vieira?

(Continua)
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* Publicado em Literaturas sem fronteiras
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